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Atividade · Ensino FundamentalCom gabarito

Interpretação de texto: crônica com ironia

Crônica com ironia + 12 questões sobre ponto de vista do narrador, efeito de linguagem e crítica implícita, com gabarito comentado.

Disciplina:
Língua Portuguesa
Série:
8º ano
Questões:
12
Gerar o meu em 30s

Objetivo da atividade

Ler uma crônica que usa ironia e treinar a leitura em três camadas: o que o texto diz, o que o texto sugere e o que o autor pensa por trás do que escreveu. No 8º ano a interpretação deixa de ser só "achar a resposta no parágrafo" e passa a exigir que você perceba o ponto de vista de quem narra, o efeito das escolhas de linguagem e a crítica que a crônica faz sem nunca declarar abertamente.

Instruções para os alunos

  • Leia o texto duas vezes. Na segunda leitura, preste atenção especial nos comentários do narrador entre parênteses e travessões.
  • Responda no caderno, em frases completas, sempre justificando com o texto.
  • Atenção: em vários momentos o narrador diz uma coisa e quer dizer outra. Desconfie.
  • Quando a questão pedir análise de linguagem, copie a expressão exata que você está analisando.

Texto de apoio

O especialista

Meu vizinho de cima entende de tudo. Não é força de expressão: de tudo mesmo. Já me explicou por que meu carro faz aquele barulho (é a correia, disse ele, com a segurança de quem nunca abriu um capô na vida), por que o time vai cair para a segunda divisão, por que aquela obra na esquina está errada desde a fundação e por que o problema do Brasil, no fundo, é cultural.

Chamo ele de Doutor. Ele gosta. Nunca perguntei doutor em quê.

Semana passada, o elevador quebrou. Doze andares, dois elevadores, um parado havia meses e o outro decidiu acompanhar o colega. O síndico convocou reunião de emergência na garagem, e meu vizinho chegou dez minutos atrasado, o que é uma estratégia: quem chega atrasado entra falando, e quem entra falando não precisa ouvir o que já foi dito.

Ele diagnosticou o problema em quarenta segundos. Era o motor. Todo mundo sabia que era o motor, inclusive o técnico da empresa, que estava ali de macacão, com a prancheta na mão, esperando a reunião acabar para poder trabalhar. Mas o Doutor explicou o motor com tanta convicção que a garagem inteira assentiu, aliviada, como se explicar já fosse metade de consertar.

Aí ele foi além. Disse que a empresa contratada não prestava, que ele conhecia gente do ramo, que conseguiria pela metade do preço e que era só deixar com ele. Houve um murmúrio de aprovação. Alguém propôs palmas. O síndico, que é um homem prático e cansado, perguntou apenas:

— O senhor consegue quando?

Fez-se um silêncio de uns quatro segundos. Quatro segundos, numa garagem com quarenta pessoas, é muito tempo.

— Preciso ver uns detalhes — disse o Doutor.

O técnico de macacão pigarreou, disse que o motor chegava na quinta e que ele mesmo instalava na sexta. Ninguém bateu palmas para ele. Subimos os doze andares a pé, em silêncio, e no sexto andar meu vizinho ainda estava explicando, agora sobre a acústica da escada.

Questões

1. Qual é a situação concreta que dá origem à história? Copie o trecho que apresenta o problema.

2. Segundo o narrador, quais assuntos o vizinho já lhe explicou? Cite ao menos três.

3. Releia: "é a correia, disse ele, com a segurança de quem nunca abriu um capô na vida." O que o narrador está realmente dizendo sobre o vizinho? Por que ele não diz isso diretamente? (Análise de linguagem)

4. O narrador escreve: "Chamo ele de Doutor. Ele gosta. Nunca perguntei doutor em quê." Explique o efeito dessas três frases curtas, uma atrás da outra. O que a última revela? (Análise de linguagem)

5. O texto afirma que chegar atrasado "é uma estratégia". Explique o raciocínio do narrador e diga se ele está elogiando ou criticando o vizinho. (Inferência)

6. Por que o narrador faz questão de mencionar que o técnico estava ali "de macacão, com a prancheta na mão, esperando a reunião acabar para poder trabalhar"? Que contraste ele quer construir? (Análise crítica)

7. Releia: "a garagem inteira assentiu, aliviada, como se explicar já fosse metade de consertar." Que crítica essa comparação faz, e ela é dirigida só ao vizinho ou também às outras pessoas? (Análise crítica)

8. O narrador dá destaque a um silêncio de quatro segundos e comenta que "é muito tempo". O que acontece nesse silêncio? Por que ele é o momento decisivo da crônica? (Inferência)

9. Ninguém bateu palmas para o técnico, que foi quem de fato resolveu o problema. O que essa ausência de palmas diz sobre o que as pessoas valorizam? (Análise crítica)

10. A crônica termina com o vizinho explicando "a acústica da escada" enquanto todos sobem doze andares a pé. Explique por que esse é um bom final e o que ele confirma sobre a personagem.

11. Em uma frase, qual é a crítica central da crônica? Ela ataca uma pessoa específica ou um comportamento comum?

12. Escreva um parágrafo de cinco a sete linhas narrando uma cena em que alguém fala com muita segurança sobre algo que claramente não domina. Use pelo menos um comentário irônico do narrador, no estilo do texto lido.

Gabarito

1. O elevador do prédio quebrou: eram dois elevadores, um já estava parado havia meses e o outro também parou, num prédio de doze andares. Trecho: "Doze andares, dois elevadores, um parado havia meses e o outro decidiu acompanhar o colega." Comentário: localização. Vale observar a personificação em "decidiu acompanhar o colega".

2. O barulho do carro do narrador, a queda do time para a segunda divisão, o erro na obra da esquina e o problema do Brasil. Comentário: localização com seleção; três dos quatro bastam.

3. Está dizendo que o vizinho fala com total autoridade sobre um assunto que não conhece na prática. Não diz diretamente porque a ironia é mais eficaz: ao elogiar a "segurança" e em seguida revelar que ele nunca abriu um capô, o narrador deixa o próprio leitor tirar a conclusão, o que torna a crítica mais divertida e mais forte. Comentário: análise de linguagem. Espera-se que o aluno nomeie a ironia ou descreva seu funcionamento.

4. O efeito é de corte seco, como uma piada com remate. As duas primeiras frases parecem informação neutra; a terceira desmonta tudo, ao revelar que o título nunca foi verificado por ninguém, inclusive pelo narrador. A brevidade acelera o golpe. Comentário: análise de linguagem. Aceitar respostas que percebam a construção em três tempos e o efeito da frase final.

5. O raciocínio é que quem chega atrasado entra falando, e quem entra falando não precisa ouvir o que já foi dito, ou seja, evita descobrir que outros já resolveram a questão. É crítica, não elogio: o narrador está expondo um truque de quem quer aparecer sem se informar. Comentário: inferência sobre a intenção do narrador.

6. Para construir o contraste entre quem fala e quem faz. O técnico tem o conhecimento real e os instrumentos de trabalho, mas está parado, esperando a conversa terminar. O vizinho não tem nenhum dos dois e ocupa todo o espaço. Comentário: análise crítica. O detalhe do macacão e da prancheta serve de prova visual da competência ignorada.

7. A comparação critica a satisfação de ouvir uma boa explicação como se ela substituísse a solução. A crítica não é só ao vizinho: o verbo "assentiu" tem como sujeito "a garagem inteira", ou seja, atinge também as quarenta pessoas que preferiram o discurso confiante ao trabalho concreto. Comentário: análise crítica. É a questão mais importante da atividade; exige perceber que o alvo é coletivo.

8. Nesse silêncio o vizinho é confrontado com uma pergunta prática ("quando?") que exige compromisso, e não tem resposta. É o momento decisivo porque toda a autoridade construída ao longo do texto desmorona numa única pergunta objetiva, sem que o narrador precise acusá-lo de nada. Comentário: inferência. Aceitar respostas que identifiquem a quebra da autoridade pela exigência de prazo.

9. Diz que as pessoas tendem a valorizar mais a confiança e a eloquência de quem fala do que a competência discreta de quem executa. O técnico resolveu, mas não performou. Comentário: análise crítica; conecta com a questão 7.

10. É um bom final porque mostra que nada mudou: mesmo depois de exposto, o vizinho continua explicando, agora um assunto novo e igualmente aleatório. O detalhe de todos subirem doze andares a pé enquanto ele fala reforça o contraste entre discurso e realidade. Comentário: análise do fecho. Valorizar respostas que percebam a circularidade.

11. Respostas pessoais, desde que coerentes. Ideia esperada: a crônica critica o comportamento comum de confundir falar bem com saber, e a disposição coletiva de premiar quem fala em vez de quem faz. Não é ataque a uma pessoa: o vizinho é um tipo social. Comentário: síntese. Recusar respostas que reduzam o texto a "o vizinho é chato".

12. Resposta pessoal. Avaliar: presença de uma cena narrada (não apenas descrição), coerência interna, uso de pelo menos um comentário irônico identificável, e respeito ao limite de linhas. Comentário: produção que transfere o recurso analisado nas questões 3 e 4 para a escrita do próprio aluno.

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