Objetivo da atividade
Ler uma crônica curta do cotidiano e treinar três coisas que toda boa leitura pede: encontrar informações que estão escritas no texto, deduzir o que o texto sugere sem dizer com todas as letras, e perceber a ideia maior que a história deixa no final. É a porta de entrada da interpretação de texto: começar pelo que está visível e ir avançando devagar para o que está nas entrelinhas.
Instruções para os alunos
- Leia o texto duas vezes. Na primeira, entenda o que aconteceu. Na segunda, repare nos detalhes.
- Responda no caderno, em frases completas. Nada de responder só "sim" ou "não".
- Quando a questão pedir, copie do texto o trecho que prova sua resposta.
- Pode voltar ao texto quantas vezes quiser. Reler não é trapaça, é o que bom leitor faz.
Texto de apoio
A cadeira do seu Vicente
Todo mundo na rua Bela Vista sabia da cadeira do seu Vicente. Era uma cadeira de madeira, meio torta de um lado, que ele arrastava para a calçada todo fim de tarde, sempre no mesmo lugar: debaixo da amendoeira, de frente para a rua.
Seu Vicente sentava ali por volta das cinco. Ficava até escurecer. Não fazia grande coisa, só ficava. Cumprimentava quem passava, perguntava da vida de um e de outro, dava conselho quando pediam e às vezes quando não pediam. As crianças jogavam bola na frente dele e sabiam que, se a bola batesse na janela de dona Marta, seu Vicente ia interceder.
Quando ele adoeceu, a cadeira ficou uns dias vazia. A rua estranhou. Não é que alguém tenha dito em voz alta, mas as pessoas começaram a andar mais rápido, a olhar menos para os lados. As crianças foram jogar bola na quadra, mais longe.
Na terça-feira em que seu Vicente voltou, meio devagar, apoiado na neta, aconteceu uma coisa engraçada. A cadeira estava lá, na calçada, debaixo da amendoeira, virada para a rua. Ninguém confessou ter posto. Mas estava lá, limpa, com uma almofada nova que ninguém sabia de onde tinha vindo.
Seu Vicente sentou, ajeitou a almofada e olhou a rua. Em poucos minutos, uma bola rolou até o pé dele.
— Desculpa, seu Vicente!
Ele riu, devolveu a bola com um chute fraquinho e disse que estava tudo bem. A rua voltou a andar devagar.
Questões
1. Onde e a que horas seu Vicente costumava colocar a cadeira? Copie do texto o trecho que responde.
2. Segundo o texto, o que seu Vicente fazia enquanto estava sentado na calçada?
3. O texto diz que a cadeira era "meio torta de um lado". Isso é um problema na história? Explique.
4. Quando seu Vicente adoeceu, o que mudou no comportamento das pessoas da rua? Cite duas mudanças.
5. Releia: "Não é que alguém tenha dito em voz alta, mas as pessoas começaram a andar mais rápido." O que esse trecho deixa subentendido sobre o que a rua estava sentindo? (Inferência)
6. Por que as crianças foram jogar bola na quadra, mais longe? O texto não explica diretamente, então você precisa deduzir. (Inferência)
7. Quem colocou a cadeira de volta na calçada, com a almofada nova? Por que você acha que ninguém confessou? (Inferência)
8. No final, o texto diz que "a rua voltou a andar devagar". O que isso quer dizer? Está falando só da velocidade das pessoas? (Análise)
9. Em uma frase, qual é a ideia que essa crônica quer passar sobre a presença de uma pessoa num lugar?
10. Escreva de três a quatro linhas contando quem é, na sua rua, no seu prédio ou na sua escola, uma pessoa que faz falta quando não está. Explique por quê.
Gabarito
1. Na calçada, debaixo da amendoeira, de frente para a rua, por volta das cinco da tarde. Trecho: "ele arrastava para a calçada todo fim de tarde, sempre no mesmo lugar: debaixo da amendoeira" e "Seu Vicente sentava ali por volta das cinco." Comentário: localização pura, a informação está explícita nos dois primeiros parágrafos.
2. Cumprimentava quem passava, perguntava da vida das pessoas e dava conselho quando pediam (e às vezes quando não pediam). Comentário: localização. Aceitar respostas que citem pelo menos duas dessas ações.
3. Não é um problema. O texto menciona o detalhe para mostrar que a cadeira era simples e antiga, mas o que importa não é a cadeira e sim quem sentava nela. Comentário: questão de leitura atenta. O aluno precisa perceber que o detalhe caracteriza, não atrapalha a história.
4. Duas mudanças: as pessoas passaram a andar mais rápido e a olhar menos para os lados; e as crianças foram jogar bola na quadra, mais longe. Comentário: localização com seleção. As duas mudanças estão no mesmo parágrafo.
5. Deixa subentendido que a rua sentiu falta dele e ficou mais sem graça, mais apressada e menos acolhedora, mesmo que ninguém tenha comentado isso em voz alta. Comentário: inferência. A expressão "não é que alguém tenha dito" avisa ao leitor que o sentimento existia sem ser falado.
6. Porque sem seu Vicente na calçada não havia mais quem intercedesse com dona Marta se a bola batesse na janela dela. Sem essa proteção, ficou mais seguro jogar longe. Comentário: inferência que exige ligar dois trechos distantes do texto (a interceção no segundo parágrafo e a mudança no terceiro).
7. Foram os próprios vizinhos da rua. Ninguém confessou porque não fizeram por reconhecimento, e sim por carinho, e falar disso deixaria o gesto sem graça. Comentário: inferência. Aceitar qualquer resposta que identifique os vizinhos e ofereça uma explicação coerente para o silêncio.
8. Não fala só de velocidade. Quer dizer que a rua voltou a ser um lugar tranquilo, em que as pessoas têm tempo de conversar e olhar em volta. A calma voltou junto com seu Vicente. Comentário: análise. Espera-se que o aluno perceba o sentido figurado de "andar devagar".
9. Respostas pessoais, desde que coerentes. Ideia esperada: uma pessoa pode ser importante para um lugar sem fazer nada de extraordinário, só por estar presente. Comentário: síntese do tema central.
10. Resposta pessoal. Avaliar se o aluno identifica uma pessoa concreta, explica o motivo da falta que ela faria e respeita o limite de linhas. Comentário: produção a partir da leitura, ligando o tema da crônica à experiência do aluno.