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Atividade · Ensino MédioCom gabarito

Desigualdade social e estratificação no Brasil

Texto de apoio + 10 questões sobre estratificação, mobilidade social e meritocracia, com gabarito comentado e critérios de correção.

Disciplina:
Sociologia
Série:
3º ano EM
Questões:
10
Gerar o meu em 30s

Objetivo da atividade

Sair da opinião e chegar ao argumento. A desigualdade é o tema em que o aluno mais chega com explicação pronta ("é falta de esforço", "é culpa da política"), e o trabalho da Sociologia é transformar essa impressão em análise: distinguir desigualdade de pobreza, reconhecer os critérios de estratificação, ler um dado sem forçá-lo a dizer o que se quer, e perceber como oportunidades desiguais se acumulam ao longo de uma vida.

Instruções para os alunos

  • Responda no caderno, em frases completas. Opinião sem justificativa não conta como resposta.
  • Quando a questão trouxer dado, use o dado. Diga o que ele mostra e o que ele não mostra.
  • Nas questões de posicionamento, você pode discordar do texto, desde que sustente com argumento.
  • Termos técnicos (estratificação, mobilidade, meritocracia) devem aparecer usados, não apenas citados.

Texto de apoio

Dois pontos de partida

Imagine duas crianças nascidas no mesmo ano, na mesma cidade. A primeira mora a dez minutos da escola, tem os dois responsáveis com ensino superior, cresce ouvindo conversa sobre faculdade e nunca precisa trabalhar antes dos vinte. A segunda mora a uma hora e meia de ônibus da escola, é a primeira da família a chegar ao ensino médio, divide o quarto com dois irmãos e começa a trabalhar aos dezesseis para ajudar em casa.

As duas estudam. As duas se esforçam. Ao final do ensino médio, a diferença entre elas não é apenas de nota: é de repertório, de tempo disponível, de rede de contatos e de margem para errar. A primeira pode reprovar um ano e tentar de novo. A segunda, se reprovar, provavelmente sai.

A Sociologia chama essa diferença de estratificação social: a distribuição desigual de recursos valorizados, como renda, prestígio e poder, entre posições que a sociedade organiza em camadas. O ponto central é que essas posições não são sorteadas a cada geração. Elas tendem a se reproduzir, e a isso se dá o nome de baixa mobilidade social.

Isso não significa que ninguém muda de posição. Significa que mudar é a exceção, não a regra, e que atribuir a exceção exclusivamente ao mérito individual descreve mal o que aconteceu com a maioria.

Questões

1. Explique, com suas palavras, a diferença entre pobreza e desigualdade. Um país pode reduzir a pobreza e continuar muito desigual? Justifique.

2. O texto define estratificação social. Cite, a partir do texto, três recursos valorizados cuja distribuição é desigual.

3. Releia: "A primeira pode reprovar um ano e tentar de novo. A segunda, se reprovar, provavelmente sai." Que conceito sociológico essa frase ilustra? Explique o que ela mostra sobre a margem de erro de cada uma. (Inferência)

4. O texto afirma que as duas crianças "se esforçam". Por que essa informação é importante para o argumento que ele constrói? O que ela antecipa e responde? (Análise crítica)

5. Considere o dado hipotético: em determinado país, entre os filhos do quinto mais pobre da população, 3 em cada 100 chegam ao quinto mais rico na vida adulta. O que esse dado mede? Diga também o que ele não permite afirmar.

6. Explique o que é meritocracia e apresente um argumento a favor e um argumento contra a ideia de que a sociedade brasileira funciona segundo esse princípio.

7. Além da renda, cite dois outros critérios que estratificam a sociedade brasileira e explique como cada um pode operar mesmo entre pessoas de renda parecida. (Análise crítica)

8. O que significa dizer que as desigualdades são cumulativas? Use o exemplo das duas crianças para mostrar como uma desvantagem se soma a outra ao longo do tempo.

9. Um colega afirma: "se as duas estudaram na mesma escola pública, tiveram a mesma oportunidade". Responda a esse colega usando pelo menos dois elementos do texto.

10. Escreva um parágrafo de seis a oito linhas defendendo uma política pública que, na sua avaliação, atacaria a desigualdade de oportunidades descrita no texto. Explique por qual mecanismo ela agiria, não apenas que ela seria boa.

Gabarito

1. Pobreza é a ausência de recursos mínimos para uma vida digna, medida por um patamar absoluto (renda, acesso a serviços). Desigualdade é a diferença de distribuição entre os grupos de uma mesma sociedade, medida de forma relativa. Sim, um país pode reduzir a pobreza e seguir muito desigual: se a renda de todos sobe, mas a dos mais ricos sobe proporcionalmente mais, menos gente está abaixo da linha da pobreza e a distância entre o topo e a base aumentou. Comentário: é a distinção conceitual que sustenta toda a atividade; sem ela o aluno trata os dois termos como sinônimos.

2. Renda, prestígio e poder. Comentário: localização conceitual no parágrafo de definição.

3. Ilustra a desigualdade de oportunidades e, especificamente, a diferença de margem de erro. A primeira criança pode errar sem que isso encerre sua trajetória escolar, porque a família absorve o custo; a segunda não tem essa rede, e um único tropeço vira saída definitiva. Comentário: inferência. Aceitar também respostas que mobilizem "capital econômico e cultural da família" como o que sustenta a segunda chance.

4. É importante porque neutraliza a explicação individualista antes que ela apareça. Ao afirmar que ambas se esforçam, o texto impede que a diferença de resultado seja atribuída à falta de empenho, e obriga o leitor a procurar a causa nas condições, não nas pessoas. Comentário: análise crítica da estratégia argumentativa. É a questão que mais separa leitura atenta de leitura superficial.

5. Mede mobilidade social intergeracional: a chance de alguém nascido na base da distribuição de renda chegar ao topo. Não permite afirmar as causas dessa baixa mobilidade, nem que os 3 chegaram lá por mérito e os 97 falharam por falta dele, nem nada sobre a trajetória dos que ficaram nas faixas intermediárias. Comentário: a segunda parte é a que importa. Recusar respostas que apenas repitam o número sem delimitar o alcance dele.

6. Meritocracia é o princípio segundo o qual posições sociais devem ser distribuídas conforme o esforço e o talento individual. A favor: como ideal normativo, sustenta concursos e seleções por critérios impessoais, o que é preferível a herança ou indicação. Contra: como descrição da realidade brasileira, ignora que o ponto de partida é desigual, de modo que o resultado mede também a condição de origem, e não só o mérito. Comentário: exigir os dois lados. Resposta que só ataca ou só defende está incompleta.

7. Respostas possíveis: raça, gênero, região, escolaridade dos pais, local de moradia. Exemplos de operação com renda parecida: dois candidatos com o mesmo salário podem ter tratamento diferente numa entrevista por causa de raça; mulheres e homens em cargos equivalentes podem ter trajetórias distintas de promoção; morar numa periferia distante consome horas de deslocamento que a mesma renda não compensa. Comentário: análise crítica. Exigir que o aluno explique o mecanismo, não apenas liste o critério.

8. Significa que as desvantagens se somam e se reforçam ao longo do tempo, em vez de se compensarem. No exemplo: a distância da escola tira horas de estudo, a necessidade de trabalhar tira mais, a ausência de repertório familiar dificulta o acompanhamento, e cada um desses fatores torna o seguinte mais pesado. Ao final, a diferença acumulada é muito maior que qualquer uma das diferenças isoladas. Comentário: conceito central; aceitar formulações equivalentes de "efeito cumulativo".

9. Respostas devem mobilizar ao menos dois destes: o tempo de deslocamento, que reduz as horas disponíveis para estudo; a necessidade de trabalhar a partir dos dezesseis; a escolaridade dos responsáveis e o repertório familiar; a ausência de margem para reprovar. A mesma escola não produz a mesma oportunidade porque o que cerca a escola é diferente. Comentário: a questão treina o uso do texto como evidência numa réplica, que é a competência cobrada em redação dissertativa.

10. Resposta pessoal. Avaliar três coisas: (a) a política é descrita concretamente, não como intenção genérica; (b) o aluno explica por qual mecanismo ela agiria sobre alguma desvantagem citada no texto (tempo, renda, repertório, margem de erro); (c) o argumento se sustenta em pelo menos um elemento do texto. Exemplos que costumam funcionar: transporte escolar gratuito, ensino integral, bolsa de permanência, política de cotas. Não avaliar a posição política do aluno, e sim a consistência do mecanismo apresentado. Comentário: produção argumentativa.

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